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Por: Antonio Gil Castinheiras Neto
INTRODUÇÃO:
A saúde e a qualidade de vida do homem podem ser preservadas e aprimoradas pela prática regular de atividade física. O sedentarismo é condição indesejável e representa risco para a saúde. Estudos epidemiológicos vêm demonstrando expressiva associação entre estilo de vida ativo com menor possibilidade de morte e melhor qualidade de vida 1,2.
As doenças cardiovasculares (DCV), especificamente a doença arterial coronariana (DAC), é a maior causa de óbito no mundo. No Brasil esta causa mortis é responsável por 260 mil infartos do miocárdio (IAM) por ano 3, o leva a um dramático aumento do custo assistencial de saúde, incluindo os gastos com internação hospitalar, medicamentos, exames complementares, absenteísmo e aposentadoria precoce e consultas ambulatoriais 4. Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares estão a dislipidemia, a obesidade, o fumo, o sedentarismo, o etilismo, a hipertensão, o diabetes mellitus e a hereditariedade 5-7.
Os programas de Reabilitação Cardíaca atuam com o objetivo de modificação do estilo de vida e de distúrbios comportamentais, necessitando assim de abordagem multiprofissional, visando restituir estes indivíduos à uma satisfatória condição clínica, física, psicológica e laborativa 6-8.
Os objetivos no tratamento de pacientes com doença coronariana em múltiplos vasos incluem alívio dos sintomas de isquemia, redução na taxa de eventos cardíacos e preservação ou restauração da função ventricular esquerda, com conseqüente maior sobrevida a longo prazo 9 diminuindo as chances de sofrer um novo evento cardiovascular para os já infartados 10,11.
Em relação as alterações hemodinâmicas induzidas pelo exercício, são verificados modificações centrais e periféricas que regulam o fluxo, como aumento do débito cardíaco (DC), diminuição da frequência cardíaca de repouso (FC rep) e pressão arterial de repouso(PArep), o mesmo ocorrendo em exercícios sub-máximos, resultando em menor duplo produto 12. O aumento da massa ventricular esquerda 8,11 e a melhora da fração de ejeção são visualizadas em ecocardiograma bidimensional após treinamento de endurance até mesmo em idosos 13.
O treinamento físico de cardiopatas é essencialmente composto por exercícios aeróbicos, contra-resistência e flexibilidade 6. O aumento do vo2 máx, da tolerância ao esforço e do limiar de isquemia induzido pelo exercício aeróbico, contribuem para a melhora da qualidade de vida dessas pessoas, sendo estas variáveis medidas através da realização do teste ergométrico (T.E) 5,6.
O treinamento de força é empregado com a objetividade de aumento da massa muscular, da força e da resistência, valências estas que irão se refletir em maior facilidade para a realização de atividades diárias, no aumento da auto-estima e ajudando a combater desordens do sistema músculo-esquelético 7,14.
RELATO DO CASO
Sujeito de 57 anos, do gênero masculino, aposentado, natural do Rio de Janeiro e residente no mesmo, portador de doença arterial coronariana (DAC), revascularizado cirurgicamente (RCM) com diagnóstico de doença coronária distal multiarterial com importante restrição ao fluxo (78-92% de oclusão), apresentando comprometimento dos ramos marginais do tronco coronário esquerdo, tendo inserido como enxertos 5 safenas e 1 mamária. Seu ingresso em nosso setor de reabilitação cardíaca deu-se por indicação do seu Médico assistente, após o período de 1 (um) ano da realização da cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM), apresentando baixa capacidade cardiorrespiratória, e estado de sarcopenia. Apresentava ainda impotência funcional para atividades diárias por insegurança e por maior suscetibilidade de intercorrência após esforços.
O sujeito tinha história pregressa de alcoolismo, tempo aproximado de ± 30 anos, diabetes mellitus do tipo 2 (±10 anos), hipertensão arterial (± 6 anos), sedentário (± 25 anos), tendo histórico familiar de cardiopatia (pai) e diabetes mellitus (mãe).
O diagnóstico de insuficiência coronariana foi detectado após a realização de cateterismo, em junho de 2004.
Após a cirurgia, houve melhora significativa dos sintomas referidos e alguns medicamentos com eficiência cardiovascular foram administrados para controle dos parâmetros hemodinâmicos, dentre eles: Propatilnitrato- vasodilatador coronariano (10mg); Ramipril- inibidor da enzima conversora da angiotensina (2,5 mg); Atenolol- beta-bloqueador (50 mg), além de anti-agregante plaquetário e dislipdêmico. Todos os medicamentos citados foram administrados 2 x por dia (manhã e tarde) contabilizando portanto em dosagens equivalentes ao dobro do mencionado.
MATERIAIS E MÉTODOS
Estudo comparativo, de caso e exploratório sobre os efeitos agudos e crônicos induzidos pela prática de exercícios aeróbicos e de força muscular, analisando alterações sistêmicas decorrentes de uma resposta cardiovascular adaptativa observadas durante o período de um ano de exercício supervisionado de reabilitação cardiovascular.
Para o tratamento estatístico utilizamos o Teste t de student para dados emparelhados. Os dados foram organizados em pares e comparados às médias entre os períodos. Foi aceito o nível de significância de 5% para o erro metodológico.
No Centro de Exercício no qual a pesquisa foi conduzida, havia supervisão de Profissionais de Educação Física, fisioterapeutas e um médico. A equipe tem como rotina realizar treinamento periódico para atendimentos de urgência e emergência como os de Suporte Básico e Avançado de Vida 6.
Os primeiros dados coletados foram através de exames complementares realizados entre a data da intervenção cirúrgica e seu ingresso em nosso setor de reabilitação cardíaca.
Dentre os exames realizados incluem-se o ecocardiograma bidimensional com doppler (Eco) e teste ergométrico (TE). Entre as variáveis analisadas estão em relação ao ECO: o volume diastólico final VE, volume sistólico final do VE, fração de ejeção (FEVE), Massa do ventrículo esquerdo, espessura do septo Interventricular e da parede posterior.
Em relação ao TE: FC rep e PA rep; FC e PA máxima atingida (FC e PA pico), duplo produto obtido (DP), estimativa de perfusão miocárdica (MVO2 MÁX), capacidade máxima de transporte e utilização de O2 (VO2 MÁX) e energia consumida (MET), sob o protocolo de Bruce.
Tanto o TE quanto o Eco foram realizados no mesmo laboratório, respeitando horários pré-determinados e na presença dos mesmos médicos responsáveis pelas análises e laudo diagnóstico. Descartamos assim, interferências de ordem técnica ou laboratorial.
No terceiro e nono mês o sujeito foi submetido ao TE e no sexto e décimo segundo mês ao Eco. No final do trabalho as variáveis crônicas obtidas com o treinamento puderam então ser medidas, interpretadas e comparadas.
O exercício aeróbico foi realizado com freqüência de cinco vezes por semana e o de contra-resistência com freqüência de três vezes por semana em dias alternados (exercícios combinados).
O horário estabelecido para realização dos exercícios ficou entre 17:00 e 20:00 horas, coincidindo com a disponibilidade de horário do sujeito participante da pesquisa.
Para as variáveis agudas e subagudas obtivemos registros diários quanto: FC e PA rep, FC e PA pico no treinamento de força, PA pós treinamento resistido, FC e PA pico em exercício aeróbico, FC de recuperação (FC rec) após o 1º minuto e PA final.
Foram realizadas 112 medidas de PA durante o período de coleta dos dados.
Para aferição da pressão arterial foi utilizado o método indireto ascultatório e esfigmomanômetro de coluna de mercúrio marca OXIGELâ. Para a freqüência cardíaca, um monitor de freqüência cardíaca da marca Polarâ modelo A3.
Foram respeitados os procedimentos para aferição da pressão arterial instituído pelas IV Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial 15.
A FC e PA repouso foram aferidas após cinco minutos o ingresso do sujeito na academia, estando o sujeito na posição sentada.
No treinamento de força, foram selecionados dois exercícios: a cadeira extensora e a flexão do cotovelo para análise da PA e FC. Selecionamos esses dois exercícios, pois, de acordo com a escala subjetiva de esforço de Borg foram atingidos escores maiores segundo percepção do sujeito e por coincidir com maiores valores de FC e PA.
A FC e PA de pico no treinamento de força foram medidas na última série e entre a antepenúltima e última repetição16. A aferição da FC e PA de pico em exercício aeróbico ocorreu no minuto final do exercício. A FC de recuperação foi registrada após o primeiro minuto ao término do exercício, sendo a velocidade diminuída em 50% da máxima atingida no pico do esforço. A PA final, aferida depois dos exercícios de volta à calma (5 minutos após o término de exercícios) estando o sujeito na posição sentada.
O sujeito participante do estudo assinou consentimento Informado, no qual foram explicitadas a metodologia e os objetivos do estudo.
ESTRUTURAÇÃO DO PROGRAMA DE TREINAMENTO
Após a realização da anamnese e de acordo com as necessidades do sujeito participante da amostra, foram traçados alguns objetivos gerais como exercícios aeróbicos, de força muscular e flexibilidade.
A ordem da realização dos exercícios foi: alongamento estático, constituindo a parte inicial, treinamento de força e caminhada em esteira rolante compondo a parte principal e como exercício de volta à calma novamente alongamentos 7.
A preferência pela realização do treinamento de força antes do treinamento aeróbico ocorreu pelo fato do sujeito participante da pesquisa ter melhor se adaptado a essa rotina, segundo percepção do mesmo e após experimentar as duas situações. Este protocolo, portanto, vai a contra-senso ao preconizado pela literatura científica 6.
Para o treinamento aeróbico foi prescrito o exercício de caminhada em esteira rolante da marca METALL PROFESSIONAL FITNESS modelo RW 300â, com inclinação de -1%, 0% e 2%, que variou durante o período de treinamento e de acordo com a adaptação cardiovascular do sujeito. A velocidade inicial foi de 5,5 Km/h (1º e 2º trimestre), aumentando para 5,8 km/h (3º e 4º trimestre). Duração média de 32 ± 6 minutos, alcançando tempos maiores no final do estudo (6,17). Foi utilizado o método contínuo para o treinamento aeróbico.
Baseando-se nos resultados dos TE realizados, a intensidade variou entre 50-80 % da FC máxima atingida, de acordo com os períodos entre a adaptação e de sobrecarga 6,18.
A FC alvo foi calculada pelo método de Karvonen, onde constam os valores de FC repouso e FC máxima encontrados nos TE realizados 6.
Para o treinamento de força foram elaborados exercícios gerais (supino, remada, abdução de ombro, flexão de cotovelo e extensão de cotovelo/ cadeira extensora, cadeira flexora, cadeira adutora e cadeira solear/ abdominal) visando a profilaxia em relação a lesões osteomioarticulares, a melhora dos componentes força muscular e hipertrofia muscular, considerando o estado sarcopênico do indivíduo, que pode ser explicado pela impotência funcional pré e pós intervenção cirúrgica e período de internação hospitalar 19.
Os exercícios foram realizados seguindo o método alternado por segmento.
No treinamento de força, com exceção do exercício de extensão de cotovelo, todos os outros exercícios envolvendo membros superiores e inferiores foram realizados na posição sentada. O que pode interferir na variabilidade da FC e PA aferidos durante os exercícios.
Foi utilizada a escala de avaliação da percepção subjetiva de esforço de Borg para avaliação da intensidade nos exercícios de força 20. A intensidade introduzida no período caracterizado por maior volume (1º e 2º trimestre) foi equivalente a escalonagem quatro e cinco e no período caracterizado por maior intensidade (3º e 4º trimestre) seis e sete, considerando a escalonagem de 1 a 10 validada para ser utilizada como parâmetro de intensidade em exercícios contra-resistidos 20,21. Esta escala foi adotada pois apresenta alta correlação com indicadores de intensidade e pelo fácil monitoramento 20.
Em relação à periodização do treinamento de força foi utilizado o modelo clássico de periodização.18
Assim, na fase de maior volume foram realizadas três séries de seis repetições e quando maior intensidade duas séries de oito repetições.
Foi instituído ao sujeito a combinação de exercício respiratórios ao treinamento de força para que não houvesse bloqueio respiratório durante as fases do exercício 22.
RESULTADOS
Neste capitulo subdividimos em efeitos agudos e crônicos induzidos pela prática sistemática de exercícios para melhor interpretação dos resultados.
1. Hemodinâmica de Repouso
Tomamos como referência os valores obtidos de PA e FC da semana que antecedeu ao início do programa de exercício (controle), como sendo a representação dos níveis tensionais basais do sujeito. Então, encontramos como valores médios PAS de 121 ± 9 mmHg e PAD 75 ± 8 mmHg.
Desta forma, a partir do terceiro mês de treinamento verificamos queda significativa da PAS encontrando no segundo trimestre diminuição de 25 mmHg e para a PAD queda de 16 mmHg sobre a média destes períodos.
Essa diferença continuou a aumentar. No sétimo mês, houve redução da dosagem betabloqueadora, passando para 75mg diários, porém não foram observadas diminuições significativas tanto em cronotropismo quanto em inotropismo a partir desta intervenção. No nono mês, houve novo reajuste da dosagem, agora diminuindo a dosagem diária para 50mg. Vale ressalvar que não houve modificações significativas tanto da PA quanto da FC em repouso mesmo após a redução em 50% da medicação betabloqueadora.
A FC de repouso diminuiu, porém sem grande significância, registradas nos seis primeiros meses de treinamento, com diminuição média de 3±1 bpm., não modificando-se significativamente no decorrer do estudo.
2. Treinamento de Força Muscular
A variação da FC durante o treinamento de força no período de maior volume (1ºe2º trimestre) em relação ao exercício na cadeira extensora obteve média de 4 ± 1 bpm e na flexão de cotovelo 6 ±1 bpm com respectiva percepção de esforço entre cinco e seis. Quando a periodização foi caracterizada por maior sobrecarga (2ºe3º trimestre) a variabilidade da FC foi de 5 ± 1 bpm para cadeira extensora e 7 ± 1 bpm na flexão de cotovelo com Borg entre seis e sete respectivamente.
A PA aferida durante o pico de esforço no treinamento com pesos não variou significativamente em relação a PA inicial (p>0,05). registramos como maiores valores, aumento de 3±2,7 mmHg para a PAS e nenhum aumento ou modificação para a PAD, durante o primeiro trimestre. Foram realizadas neste período 18 monitoramentos da PA de pico e não foi visto nenhuma modificação do comportamento da PA. Após o terceiro trimestre, mesmo quando o treinamento passou a ser caracterizado pela maior sobrecarga não houve aumento significativo da PA de pico nos exercícios contra-resistidos.
Na análise da PA pós treinamento de força, encontramos em relação a PA inicial diminuição de 3,2 mmHg da PAS e nenhuma variação da PAD, sobre a média, o que nos demonstra uma leve hipotensão do componente sistólico e de manutenção da resistência vascular periférica.
Esperávamos encontrar em nosso estudo maior DP após a diminuição da dosagem betabloqueadora, fato este que não ocorreu de forma significativa. Ainda notamos uma sensibilidade maior ao ascenso da FC do que da PAS no exercício de força.
3. Treinamento Aeróbico
Em relação ao exercício de endurance a FC pico normalmente foi alcançada nos cinco últimos minutos de exercício. A variabilidade da FC foi de 15±2,5 bpm no primeiro trimestre. Após aumento da capacidade trabalho registrado pelo TE, essa variabilidade aumentou para 18±3 bpm entre o terceiro e o sexto mês. Após o sétimo mês considerando o reajuste da dosagem betabloqueadora verificou-se novo aumento da variabilidade da FC de treinamento com média de 22±1,7 bpm.
No exercício aeróbico foi encontrada dificuldade na aferição de pressão arterial de pico pelo fato do sujeito apresentar pulso-fino induzido por ação farmacológica mesmo durante esforço, e interferências ambientais. Por isso, em algumas situações, não pôde ser medida a PA durante pico de exercício.
Observamos um gradiente intra-esforço (Δ) da PAS no exercício aeróbico de + 7,5 ± 7,5 mmHg e de – 8 ± 4 mmHg para a PAD, sobre as médias dos períodos e em relação a PA de repouso. A diminuição da resistência vascular periférica ou PAD parece ter influenciado de forma direta a pequena amplitude de variação da PAS.
A PA pico teve media de 112,7 ± 9 mmHg para a PAS e 62,4 ± 8 mmHg para a PAD, no primeiro trimestre. No segundo trimestre, houve aumento da duração do exercício aeróbico e manutenção da intensidade. O comportamento da PA pico nesta fase sofreu queda quando comparada aos valores do primeiro trimestre de exercício tanto para a PAS quanto para a PAD, agora alcançando para a PAS média de 104,4 ± 15,6 mmHg e para a PAD média de 60,6 ± 9,4 mmHg. Esta modificação do comportamento hemodinâmico frente ao exercício justificou a redução da dosagem medicamentosa betabloqueadora. Porém, mesmo após este reajuste não foi verificado aumento da PA no pico do exercício aeróbico.
Esperávamos encontrar em nosso estudo maior DP após a diminuição da dosagem betabloqueadora, fato este que não ocorreu de forma significativa. Ainda notamos uma sensibilidade maior ao ascenso da FC do que da PAS no exercício aeróbico.
Observou-se na FC de recuperação, aumento da razão em 130% ou queda de 7 ± 2 bpm em relação a FC pico, quando comparado a queda de 3 ± 1 bpm relativo ao primeiro trimestre.
Já na PA final ou pós-exercício aeróbico, verificamos hipotensão reativa ao exercício quando comparamos os valores encontrados de PAS e PAD de repouso. A queda da PA ocorreu de forma significativa a partir do primeiro trimestre de exercício, alcançando valores de – 9,5 ± 7 mmHg para a PAS e – 2,5 ± 4 mmHg para a PADsobre a média no quarto trimestre de coleta dos dados.
No exercício aeróbico registramos 6 eventos sugestivos de isquemia miocárdia, como dor típica precordial refletida por aumento súbito da PA, sempre ocorridos na fase inicial de exercício até o 15º minuto de caminhada. Estas intercorrências desapareceram após o sétimo mês de treinamento. Na presença dos sintomas foram encerradas as atividades naqueles dias.
4. Variáveis Medidas em Laboratório
Quanto as variáveis crônicas induzidas pelo exercício, e ao analisarmos e compararmos os exames complementares de ecocardiograma bi-dimensional com dopller (Eco) que teve por objetivo analisar alteração estrutural, que pudesse justificar as possíveis adaptações cardiovasculares induzidas pelo treinamento que fora orientado e a realização de teste ergométrico para que pudéssemos verificar a adaptação funcional do sistema autonômico ao exercício máximo ou submáximo, analisando sua resposta clínica, hemodinâmica, eletrocardiográfica e metabólica ao esforço.
ECO: Não houve indícios de remodelamento por sobrecarga de pressão em resposta ao treinamento contra-resistência. As modificações estruturais comumente apresentadas por praticantes de treinamento resistido de alta intensidade, não foram visualisadas em nosso estudo. A depressão tanto do inotropismo quanto do cronotropismo cardíaco por bloqueio farmacológico, justifica o não remodelamento cardíaco.
Quanto ao remodelamento induzido pelo treinamento aeróbico, verificamos que o diâmetro diastólico final ventricular esquerdo manteve-se, mesmo havendo diminuição da massa ventricular.
Esta sobrecarga de volume, induzida pelo exercício aeróbico sugere um “mínimo remodelamento” como a manutenção do diâmetro diastólico final de V.E, mesmo havendo diminuição da massa ventricular.
Visualizamos também em repouso aumento da fração de ejeção do ventrículo esquerdo em 16,1%.
TE: tanto a PA e FC de repouso quanto a PA e FC de pico foram maiores do que aquelas encontradas durante o exercício aeróbico supervisionado. Verificamos ainda aumento da tolerância ao esforço entre o 1º e o 2º TE e nenhum aumento significativo entre o 2º e o 3º TE. Ainda, maior VO2 máximo medido, DP e MET consumido, e queda importante da FC e PA no primeiro minuto da fase de volta à calma, estes com maior evidência nos 2 últimos testes ergométricos. A prova de esforço nas três situações foi interrompida por cansaço referido.
DISCUSSÃO
1. Hemodinâmica de Repouso
O exercício aeróbico tem sido utilizado como método não farmacológico para a prevenção à Hipertensão Arterial Sistêmica e diminuição dos fatores de risco coronarianos 23,24. Vários estudos confirmam a existência da hipotensão pós-exercício em atividade dinâmicas e de intensidade moderada tanto em normotensos quanto em hipetensos 23,25,26. Normalmente a hipotensão é mais aparente em hipertensos podendo chegar a 20mmHg a resposta hipotensora na fase aguda 23,25. Os mecanismos da hipotensão pós-exercício tendo sido alvo de muitas pesquisas e acredita-se haver influência tanto do componente neural quanto do componente vascular 23. Acreditamos que hipotensão pós-exercício, que perdura entre as sessões de exercício, assim como, a diminuição do tônus simpático e maior vascularização muscular periférica tenham contribuído para este fenômeno.
Analisando a FC repouso verificamos ao longo do estudo pequena queda, esta que pode ser justificada pela necessidade de manutenção do Débito cardíaco já que a PA em repouso encontrava-se em níveis muito baixos, no período pré-redução de dosagem medicamentosa.
2. Treinamento de Força Muscular
Mesmo não havendo consenso sobre a medida do DP como estimativa de perfusão miocárdica em exercícios de força 14, algumas instituições como o ACSM recomendam a análise do DP e considera esta variável um indicador de trabalho cardíaco em programas de exercícios com pesos 27.
Encontramos resultados dissonantes à literatura quanto ao cronotropismo e inotropismo frente aos exercícios contra-resistência onde diversos trabalhos atribuem o maior DP nesses exercícios a maior variabilidade da PAS do que da FC 28,29. Porém, surgem hipóteses na tentativa de justificar o maior DP pelo ascenso da FC do que da PAS nos exercícios de força no qual foi submetido o sujeito participante do estudo: 1) O bloqueio farmacológico sugere uma resposta aguda ao exercício diferenciada, já que o volume sistólico está deprimido. Na tentativa de manutenção do débito cardíaco aumenta-se a ritmicidade cardíaca registrada pelo aumento da FC.
O método ascultatório em exercícios com pesos parece não ser acurado devido ao rápido decréscimo dos valores de PA, tendendo a subestimar seus valores ao final da contração muscular 30. Com o intuito de minimizar o erro na aferição da PA durante o treinamento de força, foram seguidas orientações estabelecidas por Farinatti e Polito sobre a medida da PA em exercícios com pesos 16.
Como não houve variabilidade significativa da PA em exercícios de contra-resistência, passamos a estimar o DP no treinamento de força apenas pela análise da FC a partir do terceiro mês da coleta de dados.
Vale ressalvar que não houve qualquer manifestação sugestiva de isquemia miocárdia durante o treinamento com pesos, já que foi exigido um pequeno DP – MVO2 necessário para a realização do exercício e considerando o tempo de tensão 13.
3. Treinamento Aeróbico
Alguns autores ainda atribuem a melhora da tolerância ao esforço ao treinamento de força, por estar associado ao aumento de força muscular, principalmente em indivíduos debilitados fisicamente 32.
O aumento da resistência muscular promove maior fluxo sanguíneo periférico, alterações do metabolismo, incluindo acréscimo ocorrido na capacidade oxidativa dos músculos esqueléticos, alterações histológicas e bioquímicas que justificam essa maior tolerância ao esforço 33. Diversos estudos correlacionam a pouca capacidade de gerar trabalho voluntário e baixa capacidade cardiorrespiratória com pior prognóstico e correlação estatística com taxa de morbi-mortalidade 33.
Resultados semelhantes demonstraram aumento da tolerância ao esforço em indivíduos com Insuficiência Cardíaca (IC) com estagnação da FC pico mesmo com carga de trabalho aumentada 33.
Marchionni et al. encontraram resultados semelhantes em seu estudo quanto ao aumento da tolerância ao esforço em pacientes pós infartados ingressantes em um programa de exercícios, utilizando estrutura de treinamento consonante 35.
A diminuição do DP é variável já esperada em praticantes de treinamento aeróbico 6,15,25,32,34. Os mecanismos pelos quais o treinamento físico diminui o DP parecem ser devido ao aumento da capacidade física, ocorrendo diminuição da FC, sem aumento da PA, provavelmente, pelo aumento do fluxo sanguíneo periférico e uma tendência de diminuição da resistência vascular durante o exercício e neocapilarização muscular 33.
Considera-se uma elevação inadequada da PAS quando seu gradiente intra-esforço é menor que 35mmHg, na ausência de acentuada queda da PAD, podendo, em indivíduos com diagnóstico de cardiopatia isquêmica representar disfunção contrátil do miocárdio 31.
Em relação à FC de recuperação medida após 1 (um) minuito ao término do exercício aeróbico, apesar de não haver embasamento científico para ser quantificada a sua variabilidade em cardiopatas, verificamos nítida melhora. O comportamento da FC no transiente final de exercício é um indicador da integridade do nervo vago. Com a interrupção do esforço deve haver ao menos redução de 12 bpm em relação à FC pico, portanto, uma redução menor que esta representa riscos relativos e pior prognóstico para estes sujeitos 31,34. Essa medida perde sua validade quando consideramos uma menor variabilidade da FC. Não podemos, portanto, transcrever esse mesmo parâmetro ao analisarmos variabilidades distintas. Neste estudo encontramos nos últimos meses de coleta de dados variabilidade média de 6±2 bpm, sendo bem superior da média do primeiro trimestre de 3 ±1 bpm.
A FC de recuperação anormal pode ser um marcador de dano miocárdio, pois apresenta correlação com doenças crônico degenerativas, presente em pós infartados e/ou revascularizados, menor FEVE e maiores volumes ventriculares 36.
4. Variáveis Medidas em Laboratório
Atualmente sabemos que o músculo cardíaco, assim como suas estruturas pode adaptar-se de diferentes formas. Essa resposta ao treinamento está relacionada ao tipo de exercício e de acordo com o tipo de sobrecarga que é imposta 7. Pode ocorrer remodelamento cardíaco por sobrecarga de pressão, por exemplo, como adaptação ao treinamento de potência muscular, que envolve altos débitos cardíacos durante curto espaço de tempo e de forma seqüenciada. Podemos assim, visualizar no ecodopller septo interventricular mais espessos, espessamento da parede posterior e maior massa ventricular esquerda 8,12.
Já o remodelamento cardíaco por sobrecarga de volume, ocasiona em atletas de endurance aumento do diâmetro diastólico final de ventrículo esquerdo, maior espessura da parede septal e posterior e massa ventricular esquerda 8,12.
O aumento do diâmetro do átrio esquerdo, neste caso, pode estar relacionado ao aumento do retorno venoso, podendo ser compreendido pelo mecanismo de frank-starling 38.
Volume sistólico final diminuiu, o que parece também representar bom prognóstico, pois, essa medida nos dá uma expressão do quanto de sangue não ejetado permanece no VE após cada contração 8.
Como em outros estudos verificamos aumento da fração de ejeção em cardiopatas após treinamento de exercícios 5,6,8,12.
No TE, talvez os achados de maior estimulação tenham sofrido influência da maior tonicidade simpática desencadeada pelo estado de prontidão frente ao exercício e por influência ambiental 22. Em condições normais, durante o TE, a PAS aumenta com a intensidade crescente do trabalho aplicado e a PAD tende a manutenção ou pequena modificação 31.
A incompetência cronotrópica frente ao nível de esforço é corroborada por diversos estudos como sinal de coronariopatia ou miocardiopatia e definida como incapacidade de elevar-se a FC a um valor inferior a 2 desvios padrão da FC máxima prevista (24bpm) 31.
O retardo da redução da FC no 1º minuto pós TE, pode ser devido à diminuição da atividade vagal e tem sido associada com maior prevalência de mortalidade 31.
CONCLUSÃO
Nossos resultados demonstraram que um programa de treinamento físico orientado e de fácil aplicabilidade pode determinar diminuição da PA e FC e portanto DP em repouso e exercício sub-máximo, aumento da tolerância ao esforço máximo registrado pelo TE, aumento da FEVE visualizado pelo ECO, diminuição do tônus simpático no pós exercício com importante queda da FC e PA nos exercícios realizados e aumentos da força, da resistência e do trofismo muscular induzido pelo treinamento de força, considerando o protocolo utilizado e especificamente no caso investigado.
Em nosso estudo esperávamos encontrar uma resposta pressórica de maior amplitude após a diminuição da dosagem betabloqueadora. O DP exigido nos exercícios sofreu maior influência da ritmicidade, do que da contratilidade do ventrículo esquerdo. Esta informação carece de novas investigações, pois, até o momento não é visto como um comportamento fisiológico hemodinâmico reativo ao exercício 29.
Acreditamos, com base nesta informação que os medicamentos propatilnitrato e ramipril tenham exercido influencia direta na resposta hipotensora. Acreditamos que esta terapêutica possa ser aplicada em casos semelhantes, pois foram observadas melhora das variáveis analisadas, como também nas esferas psicológica e social, além da diminuição da terapia medicamentosa. Descartamos o quadro de insuficiência cardíaca baseando-se em dados dos exames complementares realizados.
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OBS: OS DADOS BRUTOS NÃO PUDERAM SER INCLUÍDOS EM TABELAS, POIS O SISTEMA NÃO PERMITE. PARA MAIORES DETALHES É SÓ REQUERER-ME.
Perfil do Autor
É Mestre em Ciências da Atividade Física (UNIVERSO), pós-graduado em Reabilitação Cardíaca (UGF) e Graduado em Educação Física (UNESA). Sua atual linha de pesquisa versa sobre o impacto da manipulação das estratégias de exercício resistido sobre as respostas cardiorrespiratórias. Tem experiência na área de reabilitação cardíaca e traumato-ortopédica, tendo diversos trabalhos apresentados em congressos sobre o tema. Possui grande experiência em prescrição de exercício para grupos especiais (≈ 6.000 horas). É sócio colaborador da Sociedade Brasleira de Cardiologia. email: antoniogil.ef@gmail.com